Sua empresa realmente tem ESG?

Por que tantas empresas dizem trabalhar ESG, mas quase nenhuma consegue sustentar os três pilares com coerência?

Por que tantas empresas dizem trabalhar ESG, mas quase nenhuma consegue sustentar os três pilares com coerência? Nos últimos anos, ESG virou palavra de ordem nos relatórios anuais, apresentações para investidores e campanhas institucionais. Mas, quando você olha para a prática, um padrão se repete: o “E” domina a narrativa. Parece que todo mundo descobriu ao mesmo tempo que “ambiental vende bem”. E vende mesmo. Pesquisas da McKinsey mostram que marcas percebidas como ambientalmente responsáveis ampliam share, atraem talento e melhoram preferência de compra.

Mas vamos encarar a realidade: ESG virou sinônimo de marketing verde, não de gestão. O “S” quase sempre aparece como ação externa, desconectada do time interno. Programas sociais para comunidades são importantes, claro, mas isso não substitui cultura, clima, saúde mental e coerência entre discurso e prática. É curioso notar que, apesar de a maioria das empresas dizer que “pessoas são o principal ativo”, dados da Amcham Brasil mostram que o pilar social é o menos estruturado em políticas internas.

E aí chegamos ao “G”. O pilar que ninguém quer assumir porque não dá mídia, não cria campanha bonita e, principalmente, exige disciplina. Governança não aparece em post no Instagram, mas aparece nos resultados. É o “G” que define quem decide, com quais informações, com qual transparência, com qual responsabilidade. Peter Drucker já dizia que “cultura come estratégia no café da manhã”. Hoje, eu diria que governança come storytelling, brand purpose e ESG de PowerPoint no mesmo prato.

Quando as decisões não conversam entre si, o mercado percebe na hora. O investidor vê. O cliente vê. O time sente antes de todo mundo. É aí que começa a desconexão: empresas que falam de propósito e jogo infinito, mas operam como se tudo fosse um campeonato de trimestre.

E existe um ponto que quase ninguém toca, mas deveria: governança virou tema de performance. Não é mais debate restrito ao conselho. Não é burocracia. É sobre como uma empresa toma decisões diariamente — inclusive decisões de comunicação, investimento e gestão de risco de marca. Marcas que operam em setores regulados já entenderam que transparência, métricas e coerência narrativa são tão estratégicas quanto o budget do marketing. Setores que investem pesado em digital estão descobrindo isso agora.

Não existe performance forte sem governança forte. Um time que não entende critérios, prioridades, métricas e limites éticos toma decisões no escuro. Qualquer área da empresa sem governança de dados corre riscos graves de reputação. Um board que não conecta ESG ao crescimento deixa (muito) dinheiro na mesa.

Simon Sinek fala sobre “jogar o jogo infinito”. Só que jogo infinito exige princípios claros, não slogans. Exige coerência entre a forma como uma empresa cresce, trata pessoas, usa dados, aparece no mercado e conversa com os stakeholders.

Quando o “G” entra por último, tudo vira fachada. Quando o “G” entra primeiro, os outros pilares ganham musculatura real. O ambiental deixa de ser só campanha. O social deixa de ser só filantropia. A narrativa deixa de ser só texto bonito.

Algumas empresas Brasileiras mostram claramente que o ESG coerente e praticado em conjunto dão resultados significativos, como vemos:

  • Ambev: Mencionada por alinhar discurso e prática ESG, com foco em transparência e boa governança, além de suas agendas de circularidade e uso consciente da água.
  • Natura: Líder geral em diversos rankings de responsabilidade e governança corporativa, conhecida por suas práticas éticas e sustentáveis.
  • Itaú Unibanco: Considerado uma das empresas mais responsáveis em ESG, integrando a sustentabilidade na estratégia de negócios.
  • Suzano e Klabin: Empresas do setor de Papel e Celulose que apresentam bom desempenho e avançam em suas posições em rankings de sustentabilidade e governança.

Essas empresas demonstram um compromisso com a transparência e a responsabilidade, o que é validado por sua inclusão em índices como o ISE B3 (Índice de Sustentabilidade Empresarial da B3) e o IGPTW B3 (índice que reconhece as melhores empresas para trabalhar)

A pergunta que fica é simples e direta: Estamos construindo reputação ou só embalagens bonitas? Estamos gerando valor ou só tentando acompanhar a tendência? Temos ESG de verdade ou um discurso funcional para apresentações corporativas?

Sem governança, não existe ESG. Existe só narrativa. E o mercado cansou de narrativa sem prática.